Como era de se esperar, estamos em um ano eleitoral e todas as camadas da sociedade classificadas como “minorias” (que na verdade representam a maioria do povo brasileiro) começam a receber uma atenção muito maior do que a de costume. Afinal precisam utilizar estas “castas” para garantir a manutenção das elites políticas em todo país, não é mesmo?
Poderia citar vários destes grupos rotulados: “negros”, “homossexuais”, mas – por motivos óbvios – vou comentar sobre os adeptos dos “cultos” afro-brasileiros. Como pauta da vez, entramos no ciclo midiático em manchetes de telejornais, séries de TV, matérias em revistas e tantos outros meios de comunicação com imensa penetração popular e precisamos ficar com os olhos abertos para compreender até que ponto a intolerância religiosa está sendo combatida ou maquiada para agradar interesses de alguns grupos.
Os dois fatos mais recentes são um assassinato de uma mulher com elementos de rituais de magia negra, peculiarmente comentados pela TV Record, e a dramatização do minissérie “Dalva e Herivelto”, na TV Globo, sobre um casal unido em ritual umbandista que constituiu uma vida conturbada.
Quanto ao jornal, pouco ou nada temos o que fazer diretamente contra a TV Record. Explico. Quem viu a reportagem, observou que textualmente a matéria registra que a polícia suspeitava de um pai-de-santo citado por um dos envolvidos no crime e momentos depois afirma que a polícia com a investigação do caso descartou esta possibilidade. Do outro lado assistimos na minissérie a cena de um casamento que em algumas cenas depois vira um comentário de que o mesmo não deu certo porque fora realizado na Umbanda e não na igreja Católica.
Muitos argumentariam que a idéia já faz parte do imaginário popular. Eu contra-argumentaria que se nós que somos destas tradições não fazemos nada, quem fará? Está certo que na sequência das cenas outro personagem afirma não ter sentido aquela visão do casamento umbandista, porém não podemos ser ingênuos. Uma “retratação” não tem a mesma repercussão do erro original. O que fazer então?
Em outro texto comentei que precisamos focar ações construtivas que desconstroem as negativas naturalmente. Os terreiros em âmbito local na conscientização da sua comunidade ou o trabalho desenvolvido pela FTU que atinge o Brasil como um todo são exemplos vivos disto. Não é uma solução de resultado imediato, mas certamente quando avança auxilia muito porque é estrutural. Tendo isto em vista, não entrei e nem vou entrar em contato com estes canais de televisão para reclamar. Todas terão “n” argumentos para justificar o que fizeram. Seja a “técnica” jornalística da Record, seja o “apelo” artístico da Globo.
Algumas instituições representativas da Umbanda ou movimentos ecumênicos optaram por “enfrentar” estas mídias. Nada contra a iniciativa, uma vez que tenho convicção na descentralização do poder nas Tradições Afro-brasileiras e que, nas palavras de meu Pai Espiritual, não tenho a última reposta porque não tenho a última pergunta. Só que estes movimentos que acreditam assumir o papel de nossos representantes sociais precisam estar coerentes com seus próprios atos. Não dá para entrar em uma ação de retratação contra intolerância religiosa em uma emissora e, ao mesmo tempo, bater palmas para a intolerância da outra. Em um mundo onde a “globalização” é “recorde”, nas palavras que agradam aos católicos e neopentecostais: Não; não podeis servir a Deus e a Mamon!
Aranauan, Saravá Fraternal,
Yabauara (João Luiz Carneiro)
Discípulo de Mestre Arhapiagha (Pai Rivas)
